O passado brilha
Aqui estou, observando a aquarela que se exibe com gosto no céu que anuncia o final de mais uma tarde. Uma paz entra em mim e começa a afogar todas as minhas preocupações, assim como se estivesse a lavar minha alma, e sinto meu corpo ficar mais leve, parece até mesmo ser posto a flutuar por anjos que me embalam como se embala um bebê para que ele possa dormir.
Delicadamente, uma brisa, uma fresca brisa me toca e consigo então sentir a calmaria do momento materializar-se na forma de memórias e palavras que não conheço, até parecem ser de outro mundo, mas todas sempre carregando essa tranquilidade em si, soando de forma doce ao ouvido e, por mais que não possa entender o que me dizem, sei que tudo que são apenas coisas boas. Mensagens de esperança, resiliência, de incentivo, é a maior manifestação de pureza e luz que já presenciei em toda a minha existência. Tudo que me resta fazer é permitir a fluidez dessa energia por mim acontecer livremente, purificando tudo por onde passa e acalmando a aflição que insiste em ser parasita em meu coração.
Como se o tempo parasse, o sol se põe lentamente, e no mesmo instante sinto o ar entrar preencher meus pulmões. Inspira. Expira. Vejo algumas estrelas se mostrarem no céu, e a sutileza de seu brilho ganhando mais força conforme o sol se esconde por trás do horizonte da cidade, enquanto estes delicados pontinhos sobre minha cabeça decoram a noite que chega vagarosamente, com todo seu mistério e segredos que esconde na escuridão.
É dito que olhar para as estrelas é olhar para o passado. É verdade que o que vemos é apenas a imagem de estrelas que um dia existiram há tanto tempo atrás que é difícil mensurar, como se o que víssemos fosse uma fotografia, que registrou a passagem delas no universo para que possamos admirar ao longo do tempo. Todas as fotos possuem estórias, algumas longas e cheias de emoções, e outras mais breves e simples, sem necessariamente expor o caminho percorrido até ser feito esse registro. Estrelas são assim, não se sabe como elas foram parar onde estavam, mas há como afirmar que um dia existiram ou ainda existem. Olhar para elas, olhar para essas memórias, traz uma variedade de sensações: algumas aquecem o coração como se o abraçassem, outras fazem os olhos chover, ou então podem também trazer arrependimentos. Tanto esse amargor quanto essa doce saudade vêm daquele sentimento difícil de descrever e de decifrar, a nostalgia. Esta se encontra sempre em busca pelo melhor momento para surgir, sobressaindo-se e ocupando a mente com sua presença.
A mente a voar como um pássaro, nem mesmo me dou conta que o céu antes colorido e cheio de alegria agora se mostra escuro e com alguns brilhos adornando-o. A lua está em algum lugar por aí, disfarçada em sua fase nova. Ela pode não aparecer aos meus olhos hoje, mas irá em algum outro momento, porque sei que ela está sempre lá fazendo companhia às suas delicadas estrelas e fazendo o céu cintilar.
A leveza que antes fluía de maneira enérgica por meu corpo agora se acalma. A tranquilidade está novamente em casa, e posso ir dormir em paz porque o céu está brilhando, e mesmo quando não estiver, sei que por detrás das nuvens essas pequeninas luzes estarão lá ainda aguardando seu momento de enfeitar a escuridão e deixá-la mais confortante.

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