Em manutenção


     Há como amar e ser amado simultaneamente? Reciprocidade se tornou algo tão raro, que quando finalmente se encontra ela, é como se já tivesse, finalmente, conseguido na vida aquilo que sempre quis, como se descobrisse o que tanto precisava mas não era capaz de identificar o que faltava dentro de mim. O pensamento de que isso é apenas coisa da minha cabeça, ou de que é apenas momentâneo e não é real acaba vindo à tona eventualmente, porque chega a ser difícil de acreditar ser merecedora de um amor assim, de uma pessoa que é tudo que sempre quis para mim e ver que ela existe, e que está ali, me fazendo a pessoa mais feliz do mundo.
     A única coisa que continuo a lutar contra e muitas vezes acabo não tendo sucesso é o medo. Medo do momento que verá mais de perto essa casa, e que perceberá as rachaduras presentes nela, obras dos fantasmas que aqui habitam, porque muitas vezes não encontro forças para me reerguer e continuar com essa manutenção eterna. Medo de ser alguém que você não quer por perto e sente ter sua energia esgotada, de que se arrependa e fique com o sentimento de que tivera seu tempo desperdiçado tentando entender uma pessoa tão confusa, que não é tudo preto e branco, nem oito ou oitenta, e sim uma pessoa que é o preto e o branco, que é o oito e o oitenta, tudo ao mesmo tempo, e como consequência disso vive numa bagunça tão grande em sua mente que se sente perdida a maior parte do tempo. Medo enfim, de perder você, de deixar esse amor escapar e isso ser tudo por culpa minha, por estar toda cheia de falhas e marcas.
     Talvez isso tudo seja apenas paranoias e inseguranças minhas que vêm apenas para atormentar, ou talvez sejam pensamentos com algum fundamento. Não tenho certeza nenhuma quanto ao que eles são, mas ainda tenho esperança de que um dia vou conseguir me resolver, e não ser mais tão frágil a ponto de poder desmoronar a qualquer momento como agora.

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