A marca de um fantasma
Um novo dia começa, e tudo que consigo ver sou eu deitada em minha cama, sem forças para me reerguer. Tudo ao meu redor ficou cinza, não vejo ninguém para me puxar enquanto me afogo nesse lugar frio, solitário, frio...
Uma mão toca meu ombro, mesmo gelada sinto meu braço começar a aquecer, abraço com mais força aquele moletom que era dele. Lágrimas descem pelo meu rosto assim como uma criança desse um morro em cima de um papelão. E deitada voltada à parede, fecho meus olhos como se tentando segurar a melancolia, e logo sou envolta em um abraço, um abraço reconfortante, vazio, como se apenas afirmasse que não tem volta. Minhas mãos trêmulas, "é por conta do remédio" repito pra mim mesma, mas claro que não é remédio para o que sinto agora, pois isso não tem medicação que alivie, que alivie esse aperto, que sem nem mesmo chegar perto, me sufoca e faz parecer como se eu fosse uma eterna contradição.
Esse abraço, tão apertado mas me parece tão longe, eu grito com todas as forças mas não se ouve som algum, muito menos minha boca se abre. Ou as pessoas é que não me escutam? Há tanto tempo é assim, é até difícil dizer. Abraço com mais força ainda o moletom que era dele, como se fosse absorver ele com meu corpo até envolver o coração, minha mente só pode corresponder lembrando.
O som da risada de duas crianças, da discussão saudável ao disputarem um contra o outro em um jogo, a calma de sussurros receosos no escuro ao faltar energia, as brigas entre irmãos que por mais que se desentendam, nunca perdem o carinho um pelo outro. Sons, imagens, sensações de uma infância com um protetor, um amigo fiel com que se pode contar sempre que precisar, que se pode ser sincera e se abrir sem medo de se decepcionar. As brincadeiras de infância, não eram iguais as que todas as demais crianças gostavam, algumas era preciso mudar um pouco, para facilitar para que os dois se divertissem igual. Uma criança que não entendia bem ao certo por quê ele não conseguia fazer algumas coisas, e sem pensar talvez o magoasse sem que fosse a intenção, e ele sempre a perdoava por sua ingenuidade.
Um toque suave e gentil seca as lágrimas que correm pelo rosto, me acalmo aos poucos até que meus músculos tensionados relaxassem, e quando deixo de sentir esse abraço em minha alma, me viro querendo ver quem estava do meu lado em momentos em que não tenho mais esperanças. Não há ninguém. Torno a me deitar da mesma forma que estava antes de me levantar, um vazio ao meu redor, um luto que não sai do meu peito e me deixa em melancolia eterna, superada por breves momentos de distração, porém sempre retornando ao mesmo lugar. Está tarde, é preciso descansar. O carinho que sinto por ti permanece aqui, fecho meus olhos e deixo o corpo relaxar, é o fim de mais um dia. De alguma forma, eu sei que de, algum lugar, é você irmão que segue ao meu lado, que não me deixa sozinha por completo, embora meu corpo sinta falta do seu abraço, da promessa de que tudo vai passar, que vai ficar tudo bem.

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