Jovem Transeunte - Capítulo 2

     - Bom dia então, quero que conheçam o novo colega de classe de vocês, meu sobrinho. Ele chegou na cidade sexta-feira passada, e a partir de hoje vai estudar com vocês. Pode se apresentar pra eles - acena com a cabeça em nossa direção para ele. Engolindo em seco, mãos inquietas, claramente nervoso. Seus lábios se partem, respirando fundo, começa a se apresentar:
     - Olá, me chamo Leonardo, mas podem me chamar de Leo... - enquanto isso seus olhos vagam pela sala ansiosos, sem saber muito o que fazer, e suas mãos ainda mais inquietas do que antes. Minha mente já viaja longe daqui, e com esse rostinho de bebê, quem diria que já tem 18 anos, mas se parar para pensar na verdade é só um ano mais velho que eu. Seu cabelo escuro meio bagunçado cortado pela última vez há algum tempo, seus olhos castanhos, nunca vi garoto tão bonito antes. Alto, a camiseta meio grande, alargador pequeno na orelha direita, fios de barba nascendo no queixo e também de bigode, tudo nele me chama a atenção, mas pelo visto não só a minha e sim a atenção de todas as meninas ao meu redor também.
     - Muito bem, vejamos se tem uma carteira disponível... lá, na fila da parede, atrás do João, o rapaz de óculos - ela indica o assento e ele olha na direção dita pela professora, assim que encontra a carteira vazia, ajeita sua mochila em seu ombro e vai até ela, logo pegando caderno e caneta de dentro dela quando se senta. - Muito bem, podemos começar o conteúdo de hoje? Alguém poderia me lembrar em que página paramos?
     E assim começa a aula. O tal do Leonardo nem mesmo notou, talvez a timidez tenha feito com que não olhasse para os outros alunos, mas se sentou bem na fila do lado, paralelo à minha carteira. Só consigo abaixar a cabeça e fingir que não estou aqui, nem saberia reagir se me notasse. Olho rapidamente para o lado e vejo que o João já começou a puxar papo com ele.
     O João é um garoto divertido, não tem tempo ruim com ele, apenas um dia ou outro que tá muito chato com as piadas, mas geralmente é bem legal, da para conversar sobre tudo. É também um dos meus poucos amigos homem. Alto também, de cabelos castanho claro sempre bem cortado e seus óculos quadrados, tipo "nerd", ele até é um cara bonitinho, mas apenas o vejo como amigo mesmo. Desde o ano passado ele gosta da Luana, uma menina do segundo ano que é muito linda, mas nunca conversei com ela. A primeira impressão que tive é que ela poderia ser daquelas garotas metidas, mas quem a conhece diz que não é, então não tenho uma opinião formada, apenas sei que seu cabelo ruivo e cacheado chama a atenção de todos, sem exceção, e que muitas tem inveja dela por seu rosto sem espinhas e seu corpo que não tem nada de exagerado, mas é bonito tanto por conta da sua genética quanto por ela fazer academia, o João até mesmo se matriculou na mesma academia que ela. Pelo menos dá pra ver que ele realmente se exercita em vez de só procurar por ela, porque agora ele até chama mais atenção das outras meninas do que antes, sendo que só está definindo ainda o corpo.
     Saio de repente do transe no qual fui parar quando o sinal indicando que começou o intervalo toca. Eu fiquei nesse estado por quanto tempo? Meu caderno tá quase em branco, não anotei quase nada do que a professora passou. Antes que comecem a apagar o que tá escrito para o próximo professor, me apresso pedindo para tirar foto do que ainda tá escrito. Essa professora é muito amiga de todos os alunos dela, sempre ajuda, ela só não é tão boazinha quando a pessoa não demonstra nenhum interesse ou esforço nas aulas. Fotos tiradas, volto fechar meu caderno e espero a Lê terminar de pegar o dinheiro dela pra comprar um lanche, não entendo como ela sempre demora encontrar o que precisa na mochila dela, e eu a espero com toda a paciência do mundo.
     Finalmente chegando no pátio do colégio, me direciono ao lugar que costumamos sentar e ficar conversando, só que dessa vez ele aparenta estar ocupado por alguém. Vejo o rosto de João que antes estava atrás da cabeça de outro garoto, e logo ele também me vê - ...Cacá chega aqui, tava te esperando - ele chama gesticulando com os braços exageradamente, como se eu não pudesse enxergar ele. Com isso, o outro garoto se vira para ver quem seria "Cacá" (apelido que o João inventou em algum momento, não me lembro como surgiu, e só ele me chama assim). O rapaz, pouco mais baixo que meu amigo, como se estivesse em câmera lenta ao se virar, revela seu rosto e logo já sei quem é. Por um momento o nervosismo toma conta de mim, tudo parece parar ao meu redor e minha boca fica seca. Sempre tive dificuldade de me enturmar com pessoas novas, tem situações que sou tímida demais até, e essa é uma delas. Ao me ver, um sorrisinho tímido e discreto surge em seu rosto, como um cumprimento sem graça por não saber o que fazer, e quando percebo já estou próxima dos dois.
     - Aqui ó, esse é o aluno novo, tô ajudando a se enturmar e achei que seria uma boa apresentar aos outros alunos, começando pelos melhores, é claro - comenta João me dando uma piscadela para que ajudasse o menino.
     - Ah sim, nesse caso bem-vindo, pode me chamar de Carol - me apresentei um pouco tímida ainda, admito que se não fosse obra do João eu estaria muito mais nervosa agora.
     - Valeu, pode me chamar de Leo - disse ele todo sem graça enquanto uma mão esfregava sua cabeça ansiosamente. Sua voz grave e agradável, do tipo impossível de se enjoar de ouvir. Quando solta sua mão ao lado do corpo, percebo então o reflexo da luz, e olhando melhor, vejo que é uma aliança de namoro. Não sei bem ao certo por quê me veio um sentimento de frustração, eu nem mesmo o conheço! - é o primeiro dia ainda né então ainda tô meio perdido, mas normal, tô acostumado a mudar de escola - finaliza.
     - Sério? Ué mas por quê? - João, como sempre, muito curioso.
     - Por causa do trabalho do meu pai a gente sempre precisa estar mudando de cidade, as vezes até estado, e como somos só eu e ele, a gente acaba se unindo bastante por isso.
     - Caralho que massa, que lugares que cê já morou? - continua fazendo perguntas a Leo enquanto escuto em silêncio, sem saber muito o que falar.
     - Já estudei em Mato Grosso em Várzea Grande, cidade que nasci, daí meu pai trabalhava em Cuiabá que era quase que junto uma cidade da outra, e dez anos depois quando meu velho começou a trabalhar numa empresa de sistema contábil e empresarial que cresceu bem, nos mudamos para Rondonópolis. Ele que começava as filiais onde a gente ia, até encontrar alguém que pudesse continuar no lugar dele.
     - O que que é esses sistemas aí? Como que funciona?
     - Calma caramba, deixa ele contar direito - disse a João, que estava parecendo uma criança hiperativa já.
     - Hahah tá de boa. É uma ferramenta que instalam nos escritórios e empresas clientes deles pra poder fazer o trabalho deles, só não sei explicar o que eles fazem exatamente. - Explica com paciência para nós - Mas depois de alguns anos, nem sei direito quantos, a gente se mudou direto para Cascavel no Paraná, só não ficamos em Campo Grande porque mandaram outro funcionário para lá, fiquei lá por mais algum tempo até ir pra Curitiba, - imagino a diferença que ele não sentiu saindo de um lugar quente, para vir para uma cidade que no inverno é frio pra caramba - mas daí ele recebeu uma proposta para ir pra Argentina. Por um ano ele ficou estudando espanhol em Curitiba mesmo, mas por ser o último ano de escola, eu acabei vindo pra Lages morar com a minha tia por um tempo - completa Leonardo.
     - Então tu se forma com a gente imagino - tento ter uma confirmação de que ele vai ficar aqui por mais tempo, mesmo sem entender por quê sinto a necessidade de saber isso.
     - Sim sim, só não tenho certeza do que fazer no ano que vem, não conheço nada por aqui ainda.
     - Que show, então cola comigo que se tá comigo tá com Deus irmão! - eu fico curiosa as vezes para saber como o João consegue ser tão emocionado, sério.
     - Fechou então brother! - os dois fazendo um toque de mãos como duas crianças há muito tempo sem se ver, como se fossem um a alma gêmea do outro.
     E finalmente, Letícia se aproxima com seu assado em uma mão e celular em outra, mais confusa do que nunca - O que foi que eu perdi? A tia da cantina se atrapalhou com o meu troco daí acabou demorando mais.
     - Ah o João está apresentando os outros para o Leo, sobrinho da professora Sandra - resumo.
     - Entendi, isso explica a empolgação do Jojo - ela e o João são ótimos amigos, tanto que eles tem apelidos um para o outro que só eles usam - prazer meu nome é Letícia, mas pode chamar de Lê - diz ela com seu jeitinho carismático de ser guardando o celular e estendendo sua mão a ele.
     - Leonardo, mas pode chamar de Leo - cumprimenta dando a mão a ela, também já parece estar menos tenso, talvez seja por ela ser tão calma e conseguir contagiar os outros com coisas boas mesmo sem saber bem ao certo como?!
     Assim que apertam as mãos, o sinal para o fim do intervalo toca, e como sempre que essa doida se atrasa, preciso ajudar ela a comer seu lanche. Pelo menos os lanches ali são bons e ela tem gostos parecidos com os meus quando se trata de comida. Os quatro caminhando juntos em direção a sala e contando ao novato sobre como eram as coisas por ali, sobre outros alunos, e perguntando se tinha algo que fosse muito diferente das outras escolas que estudou, e mesmo já dentro da sala de aula, os papos continuam, já que eu sento ao seu lado, João à sua frente, e Letícia logo ao lado de João, na minha frente, até que o professor Marcos entra em sala. É de longe o mais rígido, mas também explica muito bem o conteúdo, então é uma aula que gosto muito geralmente.
     Chega então meio-dia, e todos somos liberados para ir embora, quando noto Leonardo conferindo algo no celular e andando pelo mesmo caminho que eu sempre vou, penso "não vai cair minha mão se eu ir falar com ele vai?" Nem eu sei de onde veio essa coragem, talvez ainda esteja empolgada pela conversa divertida de antes, mas como não é sempre que sou assim, apuro o passo e pergunto a ele o acompanhando:
     - E aí, está perdido? - brinco.
     - Não exatamente, a tia não vai para casa a essa hora então eu pesquisei o endereço no Google Maps - responde me mostrando a tela do celular. Dou uma olhada com atenção e a casa dela é na mesma rua que eu moro. Como eu nunca soube disso?
     - Eu moro nessa rua aí também, desde quando ela mora ali? Nunca fiquei sabendo que éramos vizinhas!
     - Sério? Ela se mudou faz poucos meses parece. Tudo bem se eu voltar com você então depois das aulas?
     - Claro, sem problema algum, vai ser bom ter uma companhia.
     Enquanto andamos, sua aliança reflete o Sol forte, e minha curiosidade toma o melhor de mim.
     - Então... namorada? - pergunto apontando para a aliança. Ele olha para mim e logo em seguida para o anel.
     - Ah isso? É uma histórias engraçada - diz com uma risada tímida e sem jeito. Meu coração acelerado, por que isso? Por que tão ansiosa para sua resposta? Então abre novamente sua boca, preparando para começar a falar...

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