Jovem Transeunte - Capítulo 3

     Enquanto andamos, sua aliança reflete o Sol forte, e minha curiosidade toma o melhor de mim.
     - Então... namorada? - pergunto apontando para a aliança. Ele olha para mim e logo em seguida para o anel.
     - Ah isso? É uma histórias engraçada... - diz com uma risada tímida e sem jeito. Meu coração acelerado, por que isso? Por que tão ansiosa para sua resposta? Então abre novamente sua boca, preparando para começar a falar - na verdade não é bem uma aliança de namoro, esse anel era da minha irmã... - ao mesmo tempo que uma pequena chama de esperança se acende em meu peito ao entender que ele não namora mas sem entender muito o porquê disso, percebo que ele fica um pouco tenso falando nisso, e encara o anel em sua mão enquanto brinca com ele girando em seu dedo, aparentemente com a cabeça bem longe daqui. Mordo meus lábios, pensando no que falar para quebrar o silêncio constrangedor que ficou, acho que ele não se sente muito a vontade falando sobre isso.
     - Bom, é bonito. Ei olha, você já foi naquela sorveteria? - Pergunto quase desesperada para mudar de assunto, e como se saindo de um transe, ele olha para o outro lado da rua na direção que aponto - Não sei se você gosta de sorvete na verdade mas além de ser perto de casa, é muito boa, e também tem açaí, dava de chamar o João e a Lê pra vir aqui qualquer dia desses nós quatro.
     - Claro, é uma boa mesmo, aliás tens tempo agora? Já faz uns dias que tô a fim de um sorvete, eu te pago um.
     - Tô, tô sim... espera, não precisa pagar pra mim nã-
     - Não adianta teimar, que sabor tu gosta? - Nem mesmo consigo terminar de falar, fico toda sem jeito, o que que eu tenho de errado? Até pareço a Letícia toda emocionada, se componha Carol, é só um garoto bonito.
     - Ah é, tá doido, não quero abusar, deixa que eu pago o meu... moça me vê uma casquinha de maracujá e sonho de valsa, fazendo o favor - peço o meu já pegando o dinheiro na mochila.
     - Pra mim um de chocolate e flocos.
     Assim que pego o meu e vou em direção ao caixa, sinto uma mão em meu braço, quando me viro vejo que é Leo, apontando para algo na direção oposta ao caixa:
     - Olha, não é o João e a Letícia ali? - Olho pela janela mas não vejo nada, quando me viro novamente ele já está pagando pelos sorvetes.
     - Sabe que isso é jogo sujo né?
     - Você não me deixaria te pagar pela casquinha, deixaria?
     - Claro que não!
     - Então, aceite como um agradecimento pela companhia para casa - diz sentando-se numa mesa, com uma cara como se tivesse largado uma carta +4 jogando UNO. Reviro os olhos e me sento com ele toda sem graça.
     - Ok, dessa vez eu aceito, mas realmente não precisava - sinto minhas bochechas ficarem vermelhas e tento me esconder atrás do meu cabelo.
     - Tá certo, - responde com uma risada, daquelas que dá vontade de gravar e ficar ouvindo depois - mas então, me fale mais sobre as coisas por aqui, sobre as pessoas, sei lá, que que eu tenho que saber como alguém que caiu de paraquedas aqui do nada?
     - Difícil essa, não sei como era onde você morava, mas aqui quase todo mundo se conhece, é como a gente diz: Lages é um ovo.
     - Nossa mas aqui não é uma cidade tão pequena assim.
     - Pois é, ela teria desenvolvido bem mais mas tem muita característica de cidade pequena ainda. - A verdade é que aqui tem muita coisa que me incomoda na verdade, mas prefiro falar das que eu gosto, ninguém merece só ouvir sobre coisas negativas.
     - Mas sabe que até prefiro assim? O trânsito não é tão grande, e as pessoas costumam ser menos fechadas também, eu não gosto muito de morar em cidade muito grande sinceramente.
     - Eu nunca morei em uma pra saber se gostaria, mas eu até que gosto daqui.
     - E onde vocês vão quando saem a noite?
     - Tem alguns bares, ou pubs, nem eu sei bem ao certo o que são as vezes pra ser sincera hahah, mas tem um bar do lado da universidade aqui perto, que é pequeno e parece aqueles botecos cheio de homens de mais de cinquenta anos, mas que não tem isso e é bom pra sentar e rir com os amigos, e tem um outro ali perto que toca uns megafunks bons até, e as vezes fica bem cheio - falo já terminando de comer a casquinha, mão toda suja de sorvete já, pareço até uma criança, fico com vergonha quando me dou conta disso - e também tem um lá no centro que toca rock mas eu gosto muito, inclusive todo mundo deveria ir pelo menos uma vez lá.
     - Quem diria, uma menina que parece tão tímida me recomendando lugares para beber. Sai bastante pelo visto né? - Me olhando como se tivesse descoberto algum segredo meu e quisesse saber mais, e logo minhas bochechas esquentam novamente, era só o que me faltava.
     - Nã-não tanto, - gaguejo e já começo a me xingar por dentro, precisava ficar nervosa caramba? - na real eu saio só as vezes quando a Lê, as outras meninas, que você ainda não conheceu mas sentam perto da gente, e o João com uns amigos dele resolvemos sair, mas é meio raro eu ir até.
     - Mas por que? Seus pais que não deixam? - Essa expressão de curiosidade dele, meu Deus esse garoto não pode ser humano não, além de lindo é gente fina!
     - Sei lá, as vezes fico com preguiça de sair eu acho - nos levantando, jogo o lixo fora e vou em direção a uma pia que tem do lado de fora dos banheiros - só vou lavar as mãos ali, sempre me sujo tomando sorvete - balanço a cabeça com tom de desaprovação para mim mesma.
     - Tudo bem. Mas como assim preguiça? Não gosta de sair? - Me acompanha e me espera terminar de lavar as mãos.
     - Não não, eu adoro sair, mas tem dias que eu sinto que eu só iria atrapalhar sabe? - De cabeça baixa, nem noto o que falo para ele, dificilmente me abro pra Letícia que é minha melhor amiga, por que estou falando dessas coisas para um piá que acabei de conhecer? Quando me dou conta logo me arrependo - Desculpa, não sei nem por quê tô te dizendo isso, finja que eu não falei nada por favor. - Seco minhas mãos com pressa e já me direciono a saída enquanto ele vem logo atrás de mim.
     - Tudo bem, tudo bem... - olhando o chão pensativo de novo. Andando por um tempo em silêncio, mas não constrangedor, agora um silêncio tranquilo, vejo o anel em sua mão novamente e fico pensando sobre o que pode ser que ele ficou tão distante quando falou da irmã. Porém, discreta como sou, ele nota que estou olhando para o anel que pensei que fosse uma aliança, e solta uma risadinha, me pegando no flagra - Então, como eu disse, era da minha irmã esse anel, certo? - Aceno com a cabeça, com vergonha e medo de estar sendo muito invasiva. Continua a contar a história do bendito metal que me deixou com uma pulga atrás da orelha mas agora com um sorriso leve, uma expressão calma - Eu sou o filho mais novo, três anos mais novo que a minha irmã, Júlia. A partir dos meus 15 anos eu comecei a ir nos rolês com ela, e daí a gente acabava formando um grupo bem variado e grande de pessoas até, era muito massa. Mas ela também era companheira em momentos mais difíceis, uma pessoa muito parceira mesmo - um olhar de nostalgia aparece em seus olhos, tenho medo de onde essa história vai parar.
     - Vocês parecem muito amigos um do outro. - Falo enquanto ele anda em direção ao banco de uma praça que tem no caminho para casa. O sigo e largo minha mochila no chão na minha frente.
     - Sim, tem até quem brincava dizendo que éramos inseparáveis - uma risada amarga ao dizer isso me deixa com um peso na consciência.
     - Eu não sei o que houve mas se não quiser falar sobre isso tá tudo bem, eu respeito, é que parece ser um assunto delicado pra ti.
     - Sem problemas, ela tá bem, só que a gente se afastou... - não consigo evitar e expiro aliviada, como se estivesse segurando a respiração esse tempo todo - acho que faz pouco mais de um ano já que a gente já não se fala tanto.
     - Mas por que ela faria isso? Ai meu Deus desculpa, eu não quero ser enxerida mas é que a minha curios-
     - Hahahah tá tudo bem Carol, não se preocupe. - diz rindo da minha reação, não gosto de ser intrometida desse jeito, na verdade eu nem mesmo costumo ser - Ela começou a namorar faz um ano e meio acho, e no início mesmo não tendo uma sensação muito boa sobre o cara, eu apoiei, até porque ela já é bem grandinha né, sabe se virar já - explica tranquilamente, acho que ele está mais a vontade depois de ter rido de mim?! Pelo menos servi pra algo né - e tudo bem no início ela comentava sobre como ele estava fazendo bem pra ela, toda semana ela recebia flores em casa, ela ainda saía comigo a noite mesmo quando ele não ia junto, mas depois de alguns meses começaram a ter discussões de vez em quando, mas discussão normal de casal sabe, as vezes por coisas bobas, as vezes não, mas tava dentro do normal ainda...
     De repente ele para de falar, com o indicador em frente a sua boca faz sinal para que fique quietinha, então logo paraliso confusa. Ele pega um caderno em sua mochila e arranca uma pagina em branco, e concentrado passa ela pelo meu braço. Assim que a afasta um pequeno sorriso surge em seu rosto e me mostra o papel, que agora tem uma taturana nele.
     - Ela tava indo na direção do seu braço, por pouco que ela não chega lá.
     - Mas nossa de onde saiu isso? - Pergunto olhando ao redor, quando percebo algumas plantinhas atrás do banco, provavelmente veio dali - Obrigada, sério, não consigo com insetos.
     Ele se levanta e leva ela para outro canteiro com flores, pra que não volte mais a incomodar. Assim que termina, joga o papel no lixo e volta a se sentar ao meu lado.
     - Imagina. Enfim, onde parei mesmo? Ah verdade eu tava falando da minha irmã. Então, antes de ela conhecer esse cara a gente tinha comprado esse anel, ela tem outro igual. Eu queria gravar uma frase dentro delas mas não caberia então gravamos "Bro" no dela e "Sis" no meu. - explica enquanto mostra o interior do anel, a caligrafia linda e delicada, quem fez caprichou muito claramente - Só que, como eu disse, eles começaram a ter discussões, e nessa época ela também não ia mais sozinha quando eu chamava pra sair em algum lugar com amigos nossos, e depois de um tempo nem quando era só comigo, que sou só irmão dela! - a indignação em seu rosto não poderia ser mais clara - Mas enfim, aí chegou uma hora que eu vi que ela não estava usando mais o nosso anel, que é no mesmo dedo que usam aliança de namoro justamente pra simbolizar uma aliança, só que de irmãos, e quando perguntei ela disse que achava infantil, inventou um monte de desculpa, e quando comentei sobre na frente do namorado dela ele disse que não gostava daquilo, que achava estúpido, e que ele iria dar uma aliança de verdade pra ela.
     - Então o que ela fez com o anel?
     - Ela disse um dia que jogou fora enquanto tava na frente daquele cara, mas quando consegui ficar a sós ela me mostrou que tinha guardado muito bem. Não muito tempo depois ela nem mesmo dormia mais em casa, só com ele, e eu conversei com ela inúmeras vezes sobre isso tudo, tentei avisar que tava errado, mesmo antes de se conhecerem a gente conversava sobre esses relacionamentos abusivos, mas quando chegou a vez dela de cair em um, ela não consegue aceitar. - enquanto mordo meu lábio pensando no que dizer, não consigo evitar ficar preocupada com esse tipo de situação, mesmo não conhecendo ela - Já tem uns oito meses que ele convenceu ela a se mudar pra casa dele de vez, que é em Curitiba, e faz uns seis meses que eu quase não consigo mais falar com ela, só se for por ligação pelo celular dele e no viva-voz, e o celular dela ele tem acesso a tudo. Das últimas vezes que falei com ela, soube que não tá trabalhando mais e que trancou o curso de psicologia por causa dele. Chamadas de vídeos nunca mais fizemos porque perguntei sobre um cachecol no pescoço dele sendo que a previsão do dia era de 27ºC lá, e aquele imbecil surtou e desligou o computador dela.
     Escuto isso tudo horrorizada, nem percebo as mensagens que minha mãe mandou perguntando onde estou, agora entendo por quê ele ficou pensativo mais cedo sobre isso, ele sente falta dela, nem mesmo sei o que dizer para ele. Depois de uns segundos com os dois em silêncio, resolvo falar algo:
     - Ei, eu não posso dizer que entendo o que você ou ela estão passando, mas eu tenho certeza de que ela vai conseguir se livrar desse bosta, e com certeza ela também sente sua falta então nunca deixe que sua cabeça te dizer o contrário. Eu não sei muito o que fazer ou dizer mas sempre que quiser conversar, pode falar comigo - tento confortá-lo, sem perceber coloco a mão nas suas costas, e ainda de cabeça baixa, agora seus olhos viram para mim, e surge um sorriso meio tímido mas grato em seu rosto.
     - Obrigado. Sabe, foi muito bom falar isso, eu nem percebi que precisava disso. - Seu rosto espelha leveza, acho que ele guardou muito disso tudo por muito tempo - Então, vamos lá? Acho que são seus pais te chamando aí - aponta para meu celular.
     - Nossa verdade, nem vi a hora, - respondo já me levantando e colocando minha mochila nas costas, e logo já começo a responder minha mãe, dizendo que estou chegando.
     - Você é engraçada - olho para cima e vejo que está rindo de mim. O que eu fiz?
     - Como assim? 
     - Tu és bem tímida né? - e lá vai meu rosto avermelhar de novo. Sério, pra quê?
     - Ahn... um pouco?
     - É engraçado, você fica fofa assim. - Se eu já tava vermelha antes, agora mesmo já posso dizer que sou um tomate - Anda, ou você sabe teleportar? - Ele pergunta agora já mais distante de mim. Apuro o passo e volto a acompanhar ele até em casa, parte do caminho em silêncio, parte conversando sobre tudo e sobre nada ao mesmo tempo. As vezes é difícil entender o que ele fala, porque junto tem um som que parece um tambor que bate dentro do meu peito, e que eu juro que ele deve estar ouvindo, mas parece que só eu consigo escutar esse som que faz tum tum... tum tum... tum tum...





     Olá, tudo bem? Me diga o que estão achando dessa história, o que poderia fazer para melhorar, etc. Muitíssimo obrigada por lerem até aqui, em breve sai mais capítulos!!!
Beijão!!!

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