Trem bala da perda

     A forma com que cada ser é único é incrível, mas sempre tendemos a cair na rotina e deixar de olhar ao nosso redor. Diversas vezes deixamos de dar o devido valor a quem estava bem à nossa frente, e só notamos esse erro quando não há mais nada que se possa fazer além de mergulhar em nossas memórias e olhar para aqueles tempos que não voltam mais.
     Cada pessoa que entra em nossa vida, chega para mudar algo nela, podendo ser a forma de olhar; de agir; pensar; de se expressar, mudar nossos gostos; escolhas; nossas decisões, ou seja, alterar a forma que encaramos o mundo. Também nutrimos sentimentos por elas que podem ser tanto bons quanto ruins, tudo depende de que papel ela terá em sua vida. Mas por que algumas deixam marcas dentro de nós que nos deixam mal? E por que forçamos nós mesmos a esquecê-las se isso só nos faz lembrar ainda mais do que já passou? Quando vamos entender que tudo que vivemos serve de aprendizado, que é experiência adquirida com o decorrer do tempo? As pessoas cada vez mais querem que todas as respostas surjam de imediato, e toda essa ansiedade torna essas marcas ainda mais profundas. Não deixar as coisas acontecerem no seu tempo pode torná-las mais difíceis de se suportar, de aguentar elas passarem, e quando se percebe, por um bom período da vida o que mais esteve presente consigo foi a dor, a dor de não poder resolver algo; a dor da impotência, de não ter nada ao seu alcance; a dor de ter que assistir tudo aquilo acontecer e precisar esperar, passando por uma verdadeira prova de resistência. Por mais que a dor e muitos outros sentimentos negativos nos atormentem, sem essas provas não ficamos mais fortes, cada uma vai deixá-lo mais resistente para as que estão por vir nesse longo caminho em que o tempo nos guia, mas cabe a cada um fazer suas escolhas.
     Porém de nada adianta dirigir a palavra aos outros incentivando ou até quase ordenando que aja e pense dessa forma, se nós mesmo não o fizermos, e o que mais impede o ser humano de tomar atitudes e aceitar mudanças tão necessárias é o orgulho. É demasiado fácil apontar aos demais e julgá-los orgulhosos, prepotentes, mas se não és capaz de apontar ao espelho, que direiro tens de listar os defeitos dos outros? Se o que deseja é mudar o mundo, é preciso começar mudando dentro de si primeiro. E observando ao nosso redor podemos notar que não há a menor dificuldade em perceber que uma massiva parte da população até mesmo mundial quer ditar o que é certo ou errado, ou o que deve ser feito ou não sem aplicar em si mesmos, sendo que cada ser humano é exclusivo, não há ninguém que seja igual a algum outro indivíduo. A aparência? É simples ser parecido aparentemente com outra pessoa, mas a mente de um jamais poderá ser idêntica a do outro. O respeito começa nesse ponto, que pode até mesmo ser considerado crucial, e junto dele, a empatia. Se respeitamos e nos importamos com como o próximo está, como ele sente, age ou pensa, já é um começo para valorizar ao semelhante. Somente isso não basta, porém sem esse começo também não é possível avançar em suas relações com os demais, e ao errar com alguém, jamais poderá voltar no tempo, porém podemos aprender com esse erro admitindo-o, e pedindo perdão a quem possa ter atingido. Se essa pessoa ou grupo de pessoas o irá perdoar, aí já não cabe a você decidir, pois ninguém é obrigado a ter tal atitude, só quem se feriu sabe o quanto isso o machucou, o quão fundo suas palavras ou ações o atingiram, logo não se tem o direito de obrigar qualquer outra pessoa a perdoar a ti ou alguém mais.
     Entretanto, aquela dor, ela jamais deixará de acompanhar quem a sente, ela pode amenizar, ou ser aprendido a ignorá-la ou esquecê-la, mas ela sempre vai estar com aquele indivíduo. E como a vida é uma irônica comédia trágica, em algum momento ela pode voltar, talvez suave, como uma cicatriz que lhe faz lembrar do que houve, ou talvez com força, como se tudo que já aconteceu caísse sobre sua cabeça novamente, agindo tal como um trauma, que sempre que vivenciado novamente, o peso dele o lembra de que ele está lá para sempre. Consultas com psicólogos ajudam muito a quem enfrenta algo com tamanho impacto, e pode mostrar que aquele monstro cuja sombra o aterroriza ao ir dormir, é na verdade apenas a sombra dos galhos de uma árvore a se balançar com o vento que com seria uivos o deixava amedrontado.
     Quando dedicamos nosso tempo e atenção a alguém, aquilo também não sairá de sua memória, além de que ambos terão momentos bons para recordar e rir, Mesmo que sozinhos, com saudades daqueles momentos tão preciosos que não tiveram seu valor notado naquele instante. Pessoas vêm, pessoas vão. Pessoas nascem, e pessoas morrem, mas nunca iremos saber quando será a hora de ir, seja a nossa ou a de outro alguém, e quando as marcas deixadas são de alegria, carinho, amor, a dor da perda não terá piedade ao acertar-nos, pelo contrário, ela chegará como um trem bala em direção a uma pessoa que distraída, pisou no lugar errado e prendeu seu pé, e que quando atingida, por maior que seja o impacto, vai sobreviver à batida, mas nunca mais será a mesma, sua mente e seu corpo já estarão completamente diferentes de como eram antes.
     Cada pessoa que entra em nossa vida, chega para mudar algo nela, podendo ser a forma de olhar; de agir; pensar; de se expressar, mudar nossos gostos; escolhas; nossas decisões, ou seja, alterar a forma que encaramos o mundo, se não as valorizamos, elas irão e não poderemos fazer mais nada a elas, e mesmo que alguém apenas nos traga memórias desagradáveis ou até traumáticas, valorize, para que não tenha sentido aquela dor em vão e aprenda com os erros, tanto os seus quanto os dela.

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